Mitos e Tabus Corporativos
Um passo que considero essencial no trabalho de mobilização humana em empresas é a identificação de mitos e tabus da cultura organizacional, pois eles revelam alguns elementos constitutivos do seu jeito de ser, e servem como sinais de alerta para possíveis pontos cegos ou armadilhas culturais (e operacionais).
Mitos e tabus corporativos são criados a partir de eventos que marcam profundamente o consciente ou inconsciente coletivo da empresa, verdadeiros divisores de água que se transformam em lendas e que passam a ser uma referência, um mantra ou slogan dentro da organização e que acabam, muitas vezes, estabelecendo diretrizes ou normas de conduta. Eles podem, também, pairar no ar como algo não dito, impregnando igualmente (ou até mais poderosamente) a cultura organizacional. Tanto positiva, quanto negativamente…
O que ocorreu num cliente nosso ilustra bem a criação de um mito corporativo positivo: desde a sua origem, esta empresa teve como valor fundamental a Integridade. Num determinado momento de sua trajetória, entrou em dificuldades financeiras, com risco de falência. No auge da crise, o diretor comercial foi procurado por um novo cliente com uma oferta bastante sedutora que rapidamente solucionaria o grave problema da companhia: a compra de milhares de produtos! Mas… com uma condição: eles teriam de realizar a operação adotando uma prática irregular.
Eufórico, o diretor levou a proposta ao presidente da empresa que, por sua vez, nem quis escutar os detalhes. Com muita tranquilidade disse “Fechamos a fábrica, mas não fechamos essa proposta indecente! Nosso valor de Integridade não é um clichê proforma negociável! Trata-se da nossa essência! E aceitar tal proposta significaria violar nossa essência!”.
Este acontecimento se alastrou pela empresa e se tornou lendário. Durante anos aplicando Pesquisa de Clima neste cliente, sempre reescutávamos a mesma história e percebíamos o orgulho dos operários em trabalhar numa empresa tão séria. Integridade tornou-se um mantra que ecoava pelo ambiente e integrava os gestos e atitudes, desde as grandes decisões, até o uso zeloso dos uniformes, das ferramentas de trabalho, banheiros, lixos… todos os bens da empresa eram tratados e zelados como bens comuns.
Já um exemplo de mito corporativo que merece atenção pelo risco que envolve é o mito do perfeccionismo, muito comum em organizações com DNA de forte disciplina e que pregam a excelência total na entrega do serviço e produto perfeitos; cultuam o funcionário padrão e o líder infalível, exemplares em tudo.
Devemos lembrar que um princípio fundamental de excelência em serviço é aceitar que não devemos (e tampouco podemos) ser excelentes em tudo, pois isso seria simplesmente antieconômico e inumano.
Devemos sim, decidir e dar foco onde precisamos ter excelência, assumir que outros processos deverão ter desempenho standard ou básico, e cultivar o reconhecimento pelos nossos êxitos. E, sobretudo, aceitar nossa humanidade, afinal, perfeição e infalibilidade não pertencem ao mundo dos humanos – esta poderia ser uma forma de reescrever este mito.
Um outro exemplo, são empresas que têm como slogan ideológico “criatividade e inovação não combinam com estrutura, disciplina, rotina, processos e procedimentos formalizados”. Este mito é comumente encontrado em empresas profissionalmente ainda imaturas em seus modelos de gestão (familiares, jovens em idade ou composição) que, sob o convincente álibi da não burocratização e engessamento, temem a profissionalização e adiam o contato com seus próprios gaps de competências em gestão.
Uma forma criativa e construtiva de reescrever este mito poderia ser “criar com estrutura libera maior criatividade”, já que a estrutura (e seu carro alegórico de disciplina, formalização, rotinas, regras, etc.) pode proporcionar condições mais sustentáveis de criação e inovação.
Outro mito famoso narrado por quase toda empresa moderna é “não temos tempo” – seja para implementar metodologias de gestão; trocar experiências e conhecimentos com disciplina; para manter a rotina de reuniões de alinhamento; para priorizar; dar feedback formal; fazer follow-up; reciclar; etc.
Normalmente, este mito pode revelar a armadilha da procrastinação (e até o gosto por ela), do impulso incontrolável de sair fazendo sem planejamento e avaliação de riscos. Isso tudo é muito sedutor porque traz a ilusão da gratificação imediata – empurro com a barriga aquilo que acredito que não me traz ganhos imediatos; e também não planejo porque quero sair fazendo já para ter meu ganho imediato.
Uma versão mais construtiva do mito da falta de tempo poderia ser “tempo investido para ganhar tempo vale ouro”. Investimos tempo agora em planejamento, alinhamento e coachings para sermos mais eficazes e ganharmos tempo – esta será minha gratificação imediata: saber que estou “poupando tempo”.
Diferente dos mitos, os tabus são proibições, coisas que evitamos a todo custo, visando à preservação da cultura ou do status quo, o que pode acabar atrofiando músculos importantes.
Um tabu impressionante pela sua frequência é o do conflito. Se não é proibido, evita-se ao máximo entrar em conflito. Normalmente, prefere-se depositar as sombras (discordâncias, desafetos, contradições) sob o tapete, na ilusão de que ali elas estarão mais silenciosas e seguras. Entretanto, a vida é tensão; o equilíbrio é instável; as contradições e ambiguidades, os paradoxos e dilemas fazem parte e são motores da vida. Sendo assim, vale mais à pena exercitar e aprender a lidar com tudo isso, do que evitá-lo – inclusive, porque sombra bate à porta…
Então, procuro mostrar no meu trabalho como os conflitos bem vividos são verdadeiras tensões criativas que movem as pessoas, lapidam os egos, mobilizam as energias, minimizam as sabotagens e desfazem grandes nós de aço invisível dentro das empresas. Por isso, é de vital importância positivar este tabu através do mito “tensões criativas são muito bem vindas!”.
Por fim, e não menos importante, muito pelo contrário, existe o tabu do óbvio, alimentado pelo mito “o mirabolante vale mil vezes mais do que o óbvio”. O desprezo pelo óbvio gera muitas ideias, é verdade, já que descola nossa mente do trivial evidente e nada sexy, e estimula uma busca pelo extraordinário. Porém, tem como efeito perverso a baixa implementação, a falta de sustentação na execução ou a falta da dupla dinâmica eficiência-eficácia.
Além disso, falhas absurdas de gestão e comunicação acontecem graças à síndrome do achismo – “não falei porque achei que era óbvio”; “mas, precisava falar?”.
Para reescrever o tabu do óbvio, só há uma maneira: cultivar a gestão do óbvio! Cultuá-lo como a um deus, pois é ele que, no final do dia a dia, acaba agindo de forma milagrosa…




